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Nas montanhas do Pico do Gavião, um olival virou projeto de vida

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Elisa e Álvaro Fochi começaram com uma casa de campo e 50 mudas de oliveiras. Hoje, o Terras Altas reúne azeite, gastronomia e turismo entre Minas e São Paulo.

Antes de existir uma marca, havia uma casa na montanha. Elisa e Álvaro Fochi compraram, em 2005, uma propriedade na região do Pico do Gavião para passar os fins de semana com as filhas e os amigos. Queriam a lareira, o fogão a lenha e o tempo mais lento do campo. O azeite, que hoje dá nome ao Terras Altas, ainda não fazia parte dos planos.

A mudança começou três anos depois, quando uma reportagem sobre olivicultura em Maria da Fé, no Sul de Minas, despertou a curiosidade do casal. Eles visitaram a região e voltaram com 50 mudas. Plantá-las em um terreno pedregoso, inclinado e a cerca de 1.600 metros de altitude foi o início de uma experiência que exigiria uma década de aprendizado até a primeira grande colheita.

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“Achamos que estávamos plantando oliveiras, não percebemos que estávamos plantando uma história”, recorda Elisa. Nascidos em Poloni, no interior paulista, ela e Álvaro haviam construído a vida em Poços de Caldas. Ele, geólogo, chegou à cidade por trabalho em 1986; ela seguiu carreira em design de interiores. No antigo Sítio Flor da Serra, as duas trajetórias encontrariam um novo sentido.

O tempo das oliveiras

As primeiras safras não vieram depressa. O espaçamento inicial precisou ser corrigido, parte das árvores foi retirada e, por anos, as floradas renderam poucos frutos. Em 2012, cerca de 100 quilos de azeitonas resultaram em dez litros de azeite, extraídos com apoio da EPAMIG, em Maria da Fé. A pequena produção convenceu o casal a continuar. Após consultoria especializada e mudanças no manejo, a colheita de fevereiro de 2018 chegou a aproximadamente três toneladas de azeitonas e 300 litros de azeite.

A altitude não é apenas um dado geográfico. O olival está em uma região de origem vulcânica associada ao complexo de Poços de Caldas. Relevo, clima de montanha e características do solo compõem o terroir que Elisa e Álvaro procuram expressar a cada safra. Essa identidade territorial também aparece na produção de cafés e vinhos da região. Lançada em 2025 pelo Governo de Minas e pelo Sebrae Minas, a Rota Vulcânica reúne Andradas, Caldas e Poços de Caldas em experiências ligadas à gastronomia, à cultura e à natureza.

Hoje, o blend do Terras Altas reúne três variedades cultivadas no próprio olival: a espanhola Arbequina, a grega Koroneiki e a italiana Grappolo. O resultado, segundo os produtores, tem frutado verde, notas de grama cortada e ervas frescas, com amargor e picância equilibrados. A composição pode expressar nuances diferentes a cada safra, conforme o clima e o desenvolvimento dos frutos.

A colheita é essencialmente manual, uma escolha também determinada pelo relevo. Após serem retiradas das árvores, as azeitonas seguem em caixas arejadas para um lagar da região. O processamento ocorre poucas horas depois, sempre no mesmo dia, para preservar o frescor dos frutos.

Nos primeiros dias da safra, uma parte do azeite recém-extraído é envasada sem decantação nem filtragem. É o “Novíssimo”, uma edição limitada ao período de colheita, quando o visitante pode acompanhar o trabalho no olival e levar para casa um azeite feito a partir dos frutos daquele momento. Por preservar pequenas partículas da azeitona, deve ser consumido em até 90 dias.

O nome da marca nasceu da própria paisagem. Um consultor espanhol, impressionado com a altitude do olival, chamou a atenção do casal para o que havia de singular naquele endereço. O Pico do Gavião, as oliveiras e os voos de parapente passaram também a compor a identidade visual do produto.

Da garrafa à experiência

A expansão aconteceu sem um plano de transformar a propriedade em atração turística. Primeiro, o azeite era vendido à beira da estrada. Depois vieram um quiosque, a cerveja artesanal produzida por Álvaro e o interesse crescente de visitantes pelo olival. Em 2021, Elisa encerrou seus projetos de interiores, mudou-se com Álvaro para a propriedade e inaugurou o Empório, concebido por ela com materiais de demolição e referências à arquitetura rural do sul da França.

O percurso entre as árvores ganhou placas sobre a história da produção, poesias, lugares para sentar e um mirante para observar as montanhas. No Empório, a visita continua com degustação de azeites, produtos regionais, cervejas artesanais e pratos como pizzas de fermentação natural, tábuas de queijos e burrata. Na região de Andradas (Sul de minas – MG), a paisagem é marcada pelo Pico do Gavião, conhecido como ponto de voo livre e um dos atrativos turísticos locais.

Há também um compromisso declarado com a conservação do lugar. De acordo com os proprietários, cerca de 70% da área é mata nativa preservada. Nascentes são protegidas, há geração e aquecimento solar, resíduos de poda retornam ao olival e o manejo prioriza insumos de base biológica. O cultivo não possui certificação orgânica.

Reconhecimento e próximos capítulos

O azeite levou o nome Terras Altas a concursos internacionais. Em 2024, recebeu medalha de ouro no EVO IOOC Italy e esteve entre os cinco indicados ao prêmio Best International Coupage South Hemisphere. Na edição de 2026 do Olivinus, em Mendoza, obteve a distinção Gran Prestigio Oro, com 94 pontos. Para um projeto que começou como teste de adaptação de 50 mudas, o reconhecimento marca o percurso sem encerrar a busca por qualidade a cada nova colheita.

Elisa e Álvaro não pretendem ampliar significativamente o olival. Os planos apontam para degustações e piqueniques entre as árvores, experiências com arte, pequenas celebrações e, no futuro, cabanas integradas à paisagem. A ideia é dar ao visitante mais tempo para conhecer a origem do que encontra à mesa.

“O azeite é aquilo que conseguimos engarrafar dessa experiência. O restante fica na memória”, resume Elisa. Entre a primeira casa de fim de semana e o Empório de hoje, a montanha continua no centro da história.

Para conhecer mais sobre o Terras Altas e acompanhar o dia a dia do olival, acesse o Instagram @azeiteterrasaltas e o site www.azeitesterrasaltas.com.br

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